A verdadeira história da Globalização

theworlddubai

O primeiro grande episódio de globalização, nos anos de 1870 e 1913, protagonizado pela Grã-Bretanha, foi possível, em grande parte, graças às forças militares e não às forças de mercado. Além da Grã-Bretanha, os praticantes do comércio livre foram principalmente países mais fracos forçados, em vez de serem eles próprios a adoptarem voluntariamente, pelo jugo colonial ou por “tratados desiguais” (como serve de exemplo o Tratado de Nanquim).

Apesar do seu papel fundamental na promoção do comércio livre no final do século XIX e início do século XX, o colonialismo e os tratados desiguais quase nunca são mencionados.

O historiador britânico Niall Ferguson observa vários actos poucos impróprios no Império Britânico, mas diz que no geral teve um efeito positivo, pois foi a forma mais barata de garantir comércio livre – beneficiando toda a gente.

No entanto, estes países colonizados apresentaram muito mau desempenho. Os países asiáticos (excluindo o Japão) e os países africanos cresceram não mais de 1% neste período. Ao contrário dos países latino-americanos, que já nesta altura tinham recuperado a autonomia tarifária, apresentaram taxas de crescimento muito similares ao dos EUA.

Mas em que se baseavam estes “tratados desiguais”?

Os países ricos, que imponham estes tratados, mantinham tarifas consideravelmente elevadas, especialmente no sector industrial, favorecendo as suas indústrias, pois os países em vias de desenvolvimento não conseguiam competir em pé de igualdade com os países mais ricos.

Contradição histórica

A Grã-Bretanha, o suposto lutador do comércio livre foi um dos países mais proteccionistas até se ter convertido ao comércio livre em meados do século XIX. Esta protecção era sobretudo para os sectores agrícola, indústria pesada e química, como a produção de aço, produtos químicos e maquinaria.

Assim, a história da primeira globalização no final do século XIX e início do século XX foi reescrita com o propósito de a adaptar à actual ortodoxia neoliberal. A história do proteccionismo nos países ricos dos nossos dias é extremamente subestimada, enquanto a origem imperialista do elevado nível de integração global no que se refere aos actuais países em desenvolvimento quase nunca é mencionada.

A receita que se tenta vender nos dias de hoje é basicamente liberalizar, pois isso é o que permitirá fazer o país crescer. Ora, se o país não tem por base sectores de elevada especialização e valor acrescentado, este irá sucumbir às leis de mercado. Só com uma protecção inicial a certas indústrias é que estas poderão ser viáveis.

Alguma bibliografia:

Tratado de Nanquim. In Infopédia [Em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2013. [Consult. 2013-05-05];

D. Lal (2004), In Praise of Empires – Globalisation and Order (Palgrave Macmillan, Nova Iorque e Basingstoke);

N. Ferguson (2003), Empire – How Britain Made the Modern World (Allen Lane, Londres).

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