Quem é o Homo Economicus?

Este conceito é normalmente remetido para uma sugestão da obra de Adam Smith: “Não é da bondade do homem do talho, do cervejeiro ou do padeiro que podemos esperar o nosso jantar, mas da consideração em que eles têm os seus próprios interesses” [Smith, Adam (1776), Riqueza das Nações, Lisboa: Gulbenkian, 1993, p. 95, vol. I]. Esta observação foi combinada por alguns seguidores de Smith com a lição da Fábula das Abelhas, um poema sarcástico de Bernard Mandeville em que o egoísmo é enaltecido como garantia do bem-estar colectivo. De facto, sabe-se qie Smith abominava a obra de Mandeville, tendo expressado essa rejeição numa sua obra anterior, A Teoria dos Sentimentos Morais.

Em todo o caso, a ideia de egoísmo mercantil foi fazendo caminho. John Stuart Mill, em 1836, argumentou que a economia estudava esses comportamentos mercantis dos seres humanos: “[A Economia] não estuda o conjunto da natureza do homem tal como é modificada pelo estado social, nem a conduta do homem na sociedade. Preocupa-se unicamente com o homem como um ser que deseja possuir riqueza, e que é capaz de ajuizar da eficácia comparativa dos meios para obter esse fim” [Mill, John Stuart (1836), “On the Definition of Political Economy, and on the Method of Investigation Proper to It”, London and Westminster Review, Outubro 1836, in Essays on Some Unsettled Questions of Political Economy, Londres: Longmans, 1874, 2ª edição].

A noção de Homo Economicus passou a ser associada à definição do agente económico. Em 1906, Pareto utilizou o termo no seu Manual de Economia Política, e este jogo de palavras (o Homo Economicus seria uma nova espécie, depois do Homo Sapiens) passou a construir um dos pressupostos da economia neoclássica.

Os economistas neoclássicos encontram Homo Economicus em todos os tempos e lugares. Uma economista de Chicago, Deidre McCloskey, resumia esta convicção com toda a segurança: “As histórias das aventuras do Homo Economicus em locais improváveis começam a acumular-se, na Índia do século XIX, por exemplo, ou na Europa medieval, ou na Roma decadente” [McCloskey, D. (1978), “The Achievements of the Cliometric School”, Journal of Economic History, 38:1, p. 24].

Mas vários economistas, sociólogos e antropólogos têm vindo a contestar os fundamentos empíricos deste conceito. Foram os casos de Marcel Mauss, de John Maynard Keynes, de Karl Polanyi, de Maurice Godelier. De facto, o Homo Economicus é um conceito indefinido por conveniência: não é uma pessoa, nem um “agente”, mas um centro de stockagem de bens ou de uso de bens, que não toma decisões mas que calcula permanentemente a sua maximização de utilidade em função de input que recebe do exterior – uma espécie de computador sem humanidade.

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