Há 100 anos, assim era Portugal

Tropas portuguesas desembarcam em Brest, França, em 1917 Bibliothèque Nationale de France

Tropas portuguesas desembarcam em Brest, França, em 1917, Bibliothèque Nationale de France

28 de Junho de 1914. Sarajevo. Estamos no quilómetro zero da caminhada para a guerra. Mundial. A primeira. O cadáver do arquiduque Francisco Fernando ainda está quente. Estrebucha. Mas lá no Extremo Ocidente europeu há um país que precisa de tudo menos de confusão. Já a tem quanto baste. Especialmente desde que foi aprovada a lei eleitoral de 3 de Julho de 1913. É ainda mais restritiva do que as da Monarquia: mulher não vota, assim como os analfabetos, facilmente catequizados pelo clero e caciques locais.

Ou será que querem voltar à Monarquia? Afonso Costa é eloquente na Câmara dos Deputados: “Se quiserem fazer eleições com analfabetos, façam-nas os senhores, porque eu quero fazê-las com votos conscientes… Indivíduos que não sabem os confins da sua paróquia, que não têm ideias nítidas e exactas de coisa nenhuma, nem de nenhuma pessoa, não devem ir à urna, para não se dizer que foi com carneiros que confirmámos a república.”

Já não bastasse estar dividido entre republicanos e monárquicos, Portugal parte-se agora em quatro: anglo-francófilos beligerantes e germanófilos antibeligerantes. Pior: ninguém se entende. Muito pior: Portugal não está preparado psicologicamente para uma guerra que não comprou, mesmo que as tropas alemãs mordam os calcanhares aos nossos territórios ultramarinos de Angola e Moçambique.

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As tensões sobem quando Bernardino Machado, o presidente do Ministério, discursa na Assembleia da República sublinhando que Portugal deve honrar Windsor, esse tratado de ajuda mútua assinado no longínquo ano de 1386. Os monárquicos não estão convencidos. E fazem, inclusive, orelhas moucas aos apelos do Rei deposto, agora exilado em Londres. Dom Manuel II, O Desventurado, não se cansa de fazer apelos patrióticos para que Portugal combata ao lado dos Aliados, embora a aristocracia pátria teime em simpatizar com o Kaiser.

Neste Novembro estranho, sinal dos tempos, é proibida a subida a palco de uma revista que critica o Exército português, no Teatro da Rua dos Condes.

O escudo desvaloriza, as finanças lusas estão em estado calamitoso, bancos vão à bancarrota e o preço dos alimentos é controlado. São tempos em que uma galinha poedeira dá jeito. Um ovo é salvador. Temem-se açambarcamentos e outras práticas especulativas. Contudo, é num ambiente de relativa aceitação popular que os dois Corpos Expedicionários partem para África.

A decisão havia sido tomada a 18 de Agosto. Assinado e feito: a 11 de Setembro o tenente-coronel Alves Roçadas embarca com os seus 1600 homens em Santa Apolónia. Em simultâneo, o tenente-coronel Massano Amorim zarpa com força equivalente do terminal da Rocha do Conde D’Óbidos. Desembarcarão na África Austral dois meses depois.

Uma História de despedidas? Sim, é outro adeus português. Mas consentido. Nada mais importante para Portugal do que preservar as suas colónias, esse grande desígnio nacional.

Contudo, para se morrer em combate nem era preciso ir para o Rovuma ou Naulila. E o carrasco até podia falar português. Nem nos referimos à revolta monárquica de 20 de Outubro de 1914, em Mafra e Torres Vedras, também apodada de “Revolta da Água-Pé” e da qual resultaram três mortos. Mais grave, muitíssimo mais, é o banho de sangue de 14 de Maio de 1915.

Trata-se de uma revolta radical. Outra das que tiveram como palco a Rua do Arsenal, em Lisboa, esse vespeiro de marinheiros arsenalistas com espírito progressista. Duzentos mortos é o número que entrará nos manuais, culpa dos jornais espanhóis, há quem fale em 500. A razão? Os radicais republicanos querem depor imediatamente o Governo dito ditatorial do general Pimenta de Castro. O lema? “Restituir a República aos republicanos.”

Conseguem. E uma vez mais fica exposto o Estado dentro do Estado que é a maçonaria. Apesar de “democrático”, Afonso Costa gere a distância deste golpe sanguinolento. Mas até o grão-mestre da maçonaria, Sebastião Magalhães de Lima, fundador de O Século e um presidenciável segundo muitos, está envolvido até às orelhas.

A Carbonária assume-se como seu braço armado, mas a esta há agora que juntar a Formiga Branca, uma organização semi-clandestina radical composta por civis e fundada em 1913, que se assume como uma espécie de guarda pretoriana dos membros do Partido Republicano, primeiro, e do Partido Democrático, numa segunda fase. Estão ao lado dos sindicalistas: a 6 de Março de 1915 assaltam 11 padarias de Lisboa como protesto contra o aumento do preço do pão.

Neste caos instalado, cresce um certo saudosismo histórico mistificador. Nacionalista. E não só em Fernando Pessoa. Veja-se o amarantino Teixeira de Pascoaes e respectivo “A Arte de Ser Português”, publicado em 1915: somos, seremos, o futuro tão prometido quão adiado da Humanidade. Autênticos poços de virtudes.

Nasce também o fotojornalismo português. O seu pai tem um nome: Joshua Benoliel, judeu britânico oriundo de uma família de Gibraltar e estabelecido em Lisboa. Foi o fotógrafo do malogrado Dom Carlos e do seu filho Dom Manuel II. A ele devemos grande parte do imaginário visual da Primeira República.

O jornais gritam. A Capital. O Século. O Insurgente. Illustração Portugueza. O Corpo Expedicionário Português para a Flandres zarpa do Tejo em Janeiro de 1917, dividido por três vapores britânicos. A guerra exponencia-se em Portugal. Não é uma coisa simpática, nada que ver com a defesa das colónias. Impreparados, acumulamos milhares de cadáveres, embora haja sempre na tragédia colectiva um herói improvável que nos entrega uma taça moral.

Falamos do Soldado Milhais, aliás, Milhões, transmontano de cepa, de Murça, que com a sua humilde metralhadora permite a retirada de um Exército inteiro. As Lewis viram “Luísas”, a sua Luísa. Agigantou-o no seu metro e 55.

Chegam às famílias, e às redacções dos principais jornais, cartas de guerra com histórias tão trágicas quão romanescas. A imprensa empenha-se em apoiar o esforço de guerra, é bom ter causas nobres. Caridade. Organizam-se touradas para enviar dinheiro aos feridos de guerra.

Mas quando se está morto-vivo numa trincheira lamacenta e fria do Norte da Europa, ou metralhado por um boche, isso pouco importa. A batalha de La Lys, travada entre 9 e 29 de Abril de 1918, acelera a lusodecadência. Detalhes.

Soldados portugueses num campo de prisioneiros na frente ocidental (1918)  Bundesarchiv

Soldados portugueses num campo de prisioneiros na frente ocidental (1918), Bundesarchiv

Nessa alvorada, o contigente português enfrenta 100 mil homens com mais de mil peças de artilharia. Os alemães baptizam-na de “Operação Georgette”. Saldo para os portugueses: 1341 mortos, 4626 feridos, 1932 desaparecidos e 7440 prisioneiros. A seis meses do fim da Grande Guerra, a 2.ª divisão do Contigente Expedicionário Português fica em cacos. É o nosso segundo Alcácer Quibir.

Na verdade, o Armistício de 11 de Novembro de 1918, a que devemos juntar a mortandade da Gripe Espanhola – chega à Europa em Abril e um mês depois já dizimava em Portugal e só no rectângulo matará mais de 50 mil pessoas numa população de seis milhões -, talvez tenha sido ligeiramente pior do que o nosso 2014.

Francisco quê? Saraquê? Mas quem é que ainda está preocupado com isso?

ponto final

Há 100 anos, a 28 de junho, o assassinato de Francisco Fernando da Áustria, herdeiro do trono do império Áustro-Húngaro atira o mundo no abismo.

Fonte: dinheiro vivo

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